"Pagine
corsare"
Libri
Todos os Corpos de
Pasolini
Luiz Nazario
ENTREVISTA "O TEMPO"
http://www.otempo.com.br/otempo/
Um
poeta chamado Pasolini
A publicação
de "Todos os Corpos de Pasolini", de Luiz Nazario, mostra a importância
e grandeza da obra do artista italiano assassinado em 1975
"Mataram
um poeta! E um poeta não nasce todo dia! Um poeta nasce a cada século!
Pasolini era o maior poeta italiano deste século!". As palavras
proferidas pelo escritor Alberto Moravia, durante o funeral do seu amigo,
Pier Paolo Pasolini, dão um pouco da dimensão da obra do
artista italiano.
Assassinado de forma brutal,
numa periferia de Roma em novembro de 1975, só aos poucos o mundo
vai se dando conta da grandeza da obra deste bolonhês nascido em
1922 e que nos deixou mais de 16 mil páginas de literatura, em todos
os gêneros. Geralmente lembrado apenas como cineasta, Pasolini foi
muito mais do que isto.
Daí a importância
do novo livro do crítico Luiz Nazario, "Todos os Corpos de Pasolini",
publicado recentemente pela Editora Perspectiva. Escrito por um dos maiores
especialistas da obra do diretor de "Accattone", o volume toca de maneira
elegante e objetiva nos principais pontos da trajetória do poeta-diretor
e já se transformou em referência bibliográfica obrigatória
para quem se interessa por Pasolini.
Nazario conversou com o
Magazine sobre seu novo livro. Na entrevista, feita por e-mail, ele fala,
entre outros temas, sobre as circunstâncias misteriosas da morte
de Pasolini, do contato com o diretor brasileiro Glauber Rocha, de como
o poeta Pasolini se transformou em cineasta e de sua conturbada relação
com a esquerda italiana. Leia, a seguir, os melhores momentos da entrevista.
O TEMPO - A obra completa
de Pasolini só começou a ser publicada recentemente. O que
acredita que está mal dimensionado na obra de Pasolini e que mereceria
maior atenção?
Luiz Nazario - Na Itália,
muito já se escreveu e se publicou sobre Pasolini. Essa vasta fortuna
crítica é desconhecida no Brasil. Aqui, nem a obra literária
de Pasolini é bem conhecida, com exceção de "O Sonho
de Uma Coisa", "Teorema", "Meninos da Vida" e "Amado Meu", e recentemente,
da coletânea "Ali dos Olhos Azuis". Seria preciso publicar uma coletânea
dos melhores poemas de Pasolini e "Uma Vida Violenta", a meu ver o romance
mais bem realizado de Pasolini. A ensaística pasoliniana é
de uma densidade impressionante. Dentro dela, eu destacaria "Paixão
e Ideologia", "Descrições de Descrições", "O
Empirismo Herético", "Os Diálogos, Escritos Corsários,
Cartas Luteranas" alguns ensaios desses livros foram publicados no Brasil
em três coletâneas mistas: "Diálogos com Pasolini",
"O Caos" e "Os Jovens Infelizes", sem respeitar o formato das ediões
originais. Penso que "Petrolio", apesar de seu caráter inacabado,
é um romance que merecia ser traduzido e publicado aqui, por levar
as experiências da literatura homossexual de Jean Genet aos limites
da pornografia, inaugurando uma pornografia artística, que chegará
ao cinema com "O Império dos Sentidos" (1976), de Nagisa Oshima,
em versão heterossexual. A versão homossexual dessa pornografia
artística só chega ao cinema comercial, parece-me, com "O
Fantasma" (2000), de João Pedro Rodrigues, um filme português
que surpreende pela ousadia. Mas como a pornografia artística heterossexual
já estava bem difundida, em filmes como "Romance", "Os Idiotas",
etc. aquela outra pornografia não causou tanta polêmica. Certamente,
se não tivesse sido assassinado, Pasolini teria sido o primeiro
a realizar um filme assim, confrontando em sua época o preconceituoso
filme de Oshima. Oriento atualmente uma tese de doutorado, de José
Rodrigo Gerace, sobre o tema. Ele está mapeando, desde sua gênese
até hoje, a pornografia artística no cinema.
Pasolini demonstrava grande
preocupação com os rumos que a Itália vinha tomando
e com o enriquecimento que o país experimentava. Gostaria que o
senhor falasse um pouco disso.
Pasolini havia se radicalizado
nos anos de 1970 ao perceber que os jovens do subproletariado que ele tanto
amava haviam se convertido em delinqüentes, capazes de tudo para atingir
o status de burguês vendido nos anúncios publicitários
e na televisão como condição necessária para
alguém se tornar "ser humano". A publicidade e a TV convertiam os
jovens burgueses em subproletários mentais enquanto transformava
os jovens do subproletariado em burgueses imaginários. Como o jovem
burguês imaginário estava (e está) sempre aquém
do jovem burguês real (vestindo um jeans da moda, mas de marca inferior;
uma camiseta fashion, mas sem grife, etc.); e como a quantidade de dinheiro
acumulada torna-se a única diferença entre as classes, niveladas
pela destruição tanto da cultura superior quanto da cultura
popular, a solução encontrada pelos subproletários
na nova sociedade regida pela cultura de massa era delinqüir. Nascia
assim um crime sem limites, uma violência generalizada. O fenômeno
que Pasolini chamou de violência de massa é mundial, e em
poucos países ele se apresenta de modo tão flagrante quanto
no Brasil, onde o crime de massa tornou-se crônico, e tende à
guerra civil. Aqui também a cultura superior e a cultura popular
desapareceram. Assim como os grandes escritores brasileiros estão
no passado, a música popular brasileira deixou de existir. Hoje
só existe uma música de massa, pornográfica, chula,
berrada tanto pelos jovens pobres e marginais quanto pelos jovens de classe
média e alta. A juventude tornou-se animalesca, estúpida,
brutal. Sociólogos imbecis defendem o que eles mesmos chamam de
narcocultura, uma nova aliança entre as mídias e o narcotráfico.
Ouvir o rádio ou assistir à TV requer, de quem ainda se mantém
íntegro, um estômago forte como o que se deve ter para ver
"Salò". Como os prisioneiros do filme de Pasolini, os brasileiros
estão se alimentando, simbolicamente, de fezes. Até os jovens
mais sensíveis tatuam o corpo, esburacam-no com piercings, argolas,
brincos alargadores. Tentam parecer-se com selvagens. Odeiam a cultura
humana, e a própria humanidade. Preferem a natureza e os bichos.
Qual a importância
de se investigar o assassinato de Pasolini?
O assassinato de Pasolini,
no momento em que ele se deu, isto é, quando o cineasta finalizava
"Salò" (o filme mais maldito da história do cinema), denunciava
a corrupão de todos os poderes na Itália, não poupando
nem a direita nem a esquerda em suas diatribes; propunha o fechamento das
escolas primárias e da televisão, para se recomeçar
do zero; e anunciava seu retorno ao romance com "Petrolio", para desmascarar
todos os corruptos; foi evidentemente um crime político, para calar
a voz mais perturbadora da vida italiana. Por envolver um grande artista
italiano de renome mundial num crime homossexual normalmente reservado
às páginas policiais dos tablóides sensacionalistas,
o massacre de Pasolini tornou-se um crime misterioso, mítico. Lembra
o despedaçamento de Orfeu pelas bacantes (Orfeu havia introduzido
a homossexualidade entre os gregos e, com sua lira, a poesia, despertando
a ira de muitas mulheres que por ele se apaixonavam). Ou pensando mais
politicamente, lembra a decapitação de João Batista...
Por sua dança, Salomé pediu em troca, para o rei Herodes,
numa bandeja de prata, a cabeça do profeta que a todos perturbava
com suas visões da decadência do reino. Ao abafar o crime,
recusando-se a investigá-lo a fundo, a Justiça italiana agiu
como Herodes, entregando a cabeça de Pasolini à Salomé.
Resta-nos saber quem foi a Salomé neste crime, isto é, aqueles
que encomendaram o assassinato de Pasolini. Depois que Pelosi, réu
confesso, voltou atrás e declarou publicamente não ter sido
o único assassino, tendo se incriminado sob ameaça; e da
suspeita do cineasta Sergio Citti, de que os mesmos que haviam roubado
os negativos de "Salò" poderiam ter induzido Pasolini a uma armadilha
para linchá-lo, tornou-se evidente como nunca que os verdadeiros
autores do delito haviam escapado à Justiça. A Procuradoria
de Roma foi obrigada a reabrir o processo, mas alegando falta de provas,
encerrou-o de imediato. Essa investigação foi arquivada antes
mesmo de iniciar-se. Poucas vozes indignadas fizeram-se ouvir contra a
nova recusa de esclarecer o crime. A notícia chegou a poucos jornais,
dentro ou fora da Itália. Durante os últimos 32 anos foram
apagadas as provas, ignorados os indícios, desprezados os testemunhos,
desacreditadas as investigaões independentes de juristas, jornalistas,
intelectuais. Diante da decisão da Procuradoria, a prefeitura de
Roma constituiu-se parte ofendida no processo, forçando uma nova
investigação. Em 2006, um grupo de artistas e intelectuais,
entre os quais Giuseppe Bertolucci, Ninetto Davoli, Gian Carlo Ferretti,
Marco Tullio Giordana, Bernard Henri-Lévy, Dacia Maraini, Silvana
Mauri Ottieri, Enzo Siciliano, Gianni Biondillo e Angela Molteni, sentiram-se
igualmente ofendidos; e publicaram um Apelo à Justiça italiana
(que pode ser lido no sítio Il primo amore, http://www.ilprimoamore.com/).
Lembravam que o massacre de Pasolini foi "o mais atroz assassínio
de um poeta da idade contemporânea, mais torpe que o assassínio
de Garcia Lorca, um verdadeiro massacre de grupo, ocorrido em Roma, na
Itália, pelas mãos de italianos". Apesar de todos esses esforços,
creio que nada de concreto se obteve, nem se obterá... A morte de
Pasolini contém o mistério de sua própria vida.
No livro, você fala
do encontro (e da amizade) de Pasolini e do cineasta Glauber Rocha. Glauber
viveu um período do seu exílio na Itália. Poderia
falar um pouco dessa relação?
Glauber encontrou-se, pelo
que sei, umas três vezes com Pasolini: a primeira, em Roma, em 1965,
rapidamente, durante uma projeção privada de "Deus e o Diabo
na Terra do Sol" organizada pelo embaixador Arnaldo Carrillo; a segunda,
no Festival de Veneza, em 1967, provavelmente numa coletiva de imprensa;
e mais tarde, em Roma, onde foram juntos almoçar num restaurante,
único encontro que poderia ser assim definido. Nunca foram amigos.
Pasolini demonstrou, em seus escritos sobre cinema, não gostar dos
dois únicos filmes de Glauber que viu: "Deus e o Diabo na Terra
do Sol" e "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro". Já
Glauber escreveu admirativamente sobre o cinema de Pasolini, mas a sua
era uma admiração tingida de desconfiança, além
de desprezo e inveja pelo estilo de vida do escritor e cineasta italiano.
Acusava Pasolini, que ganhava um bom dinheiro com seus filmes difíceis,
mas atraentes, de não fazer um cinema de "macho" como o que ele
supostamente fazia, e com o qual não conseguia atrair o público
e quase nada ganhava. Também acusava Pasolini de "colonizar o sexo
dos pobres" na Trilogia da Vida, de entregar-se à "sexualidade fascista"
em "Salò", de "explorar o cu do subproletariado" em sua vida particular.
Com essas frases de efeito, Glauber denotava certa homofobia típica
do jagunço nordestino, sentimento que a grande atriz e musa Helena
Ignez negou existir em seu ex-companheiro, mas que está registrada
na entrevista gravada que ele concedeu à revista francesa "Cahiers
du Cinéma" pouco antes de morrer. O cineasta baiano, que amava —
pelo menos em seu cinema — a força das armas e do povo revoltado,
não conseguia identificar no cinema de Pasolini o desejo de poder
a que todo macho de esquerda aspira. Mas Pasolini não estava interessado
no poder; o que ele amava — em seu cinema e em sua vida — era o sexo vigoroso
dos rapazes do povo, a virilidade simples dos corpos populares, a homossexualidade
passageira dos camponeses do Friuli, dos marginais de Roma, dos pobres
do Terceiro Mundo.
Recentemente, numa entrevista,
o senhor afirmou que "o que fez Pasolini passar da língua escrita
(literatura) para uma mais complexa língua escrita da ação
(cinema) foi sua percepção de que, de modo catastrófico,
o italiano técnico tornara-se, nos anos 60, a língua dominante
na Itália". Esta é uma passagem da vida de Pasolini bastante
intrigante. Pasolini - antes de tudo poeta e escritor - se "transforma"
em cineasta. Poderia falar um pouco dessa passagem?
No início dos anos
de 1960, ocorre na Itália o chamado "milagre econômico", uma
recuperação bastante visível do país que fora
arrasado na Segunda Guerra. O trauma dos anos do fascismo e da República
de Salò; o orgulho da Resistência; o panorama de pobreza,
desemprego e humilhação pelo fascismo ainda remanescente
após a Libertação foram bem retratados pelo cinema
neo-realista do pós-guerra, em filmes como "Roma, Cidade Aberta",
"Paisà", "Ladrões de Bicicleta", "Sciuscià", "Arroz
Amargo", "La Terra Trema", etc.. Pasolini viveu este período com
muito medo de ser fuzilado pelos fascistas, depois de ser convocado pelo
exército e ter logo depois desertado. Refugiado em Casarsa, perdeu
o irmão, engajado num grupo de Resistência nacionalista, fuzilado
por guerrilheiros comunistas, num conflito que envolvia reivindicaões
do território do Friuli. Depois da guerra, Pasolini engajou-se no
Partido Comunista e apoiou a luta dos camponeses, sem pretender, contudo,
uma revolução no estilo soviético. Logo foi expulso
do PCI por conta de um rumor infamante que o levou a assumir sua homossexualidade
publicamente. Com o escândalo, foge para Roma com a mãe, deixando
o pai fascista e furioso berrando atrás deles. Neste período,
Pasolini era um literato que escrevia, além de peças, ensaios
e romances, poemas em italiano e em friulano, valorizando um dos muitos
dialetos da Itália, os quais eram proibidos pelo Estado fascista,
na meta da uniformização, da coesão, do alinhamento
de todos os cidadãos. Em Roma, para sobreviver, Pasolini entra no
fim dos anos de 1950 em contato com o mundo do cinema, através do
escritor Ítalo Calvino, que já escrevia roteiros, e inicia
sua atividade de roteirista. Nos anos 60 dá-se uma transformação
na Itália, com a recuperação econômica que também
colocará um fim tanto às esperanças de uma revolução
socialista quanto ao neo-realismo no cinema. Pasolini passa da literatura
e da escritura de roteiros para a realização de seus próprios
filmes justamente nesta época de transição, de uma
cultura política, engajada, humanista, ainda que marcada pelo catolicismo
e pelo stalinismo, para uma cultura de massa, consumista, histérica,
afastada das antigas ideologias. No contexto, embora seus primeiros filmes
sejam influenciados pelo neo-realismo, Pasolini percebe o italiano como
língua já corrompida pelo consumismo, que destrói,
ainda mais que o fascismo, os dialetos e as diversas culturas regionais
em prol de uma única cultura transmitida pelas mídias; e
procura fazer de seu cinema uma nova língua para expressar seu amor
pela realidade; isto é, pelos jovens e rapazes do povo, registrando
com a câmara sua realidade concreta, corporal, sensual, seus gestos
característicos, sua fala dialetal, tudo o que percebia estar em
vias de desaparecer devido ao que chamou de genocídio cultural:
um novo fascismo, pior que o velho fascismo, que não conseguira
realizar a unificação total que o consumismo, através
dos novos meios de comunicação de massa, estava, sim, conseguindo.
O que pensa da relação
de Pasolini com a esquerda italiana?
Pasolini era um homem de
esquerda, "companheiro de caminhada" do Partido Comunista Italiano, mas
também do Partido Radical. Contudo, diferia dos homens de esquerda
pela forma como chegou ao marxismo: não simplesmente através
da leitura de Marx e Gramsci, ou seja, através do pensamento abstrato,
mas sim através do seu contato físico com os camponeses do
Friuli, de maneira física, corporal, sensual; e só depois
através do pensamento abstrato. Por isso suas posiões são
singularmente concretas frente às posiões abstratas da esquerda
burguesa dos partidos comunistas e socialistas. E seu pensamento abstrato
nunca é puramente abstrato, mas mesclado pelas suas sensaões
vividas, pelo contato físico direto com os jovens pobres do campo,
da periferia das cidades, do Terceiro Mundo.
Numa entrevista recente,
você citou o ensaio "Il Cinema di Poesia", escrito por Pasolini,
e apontou as discordâncias do diretor quando ao conceito de cinema
de poesia defendido por ele e tão utilizado por cineastas que, aos
olhos do próprio Pasolini, aproveitavam-se dessa idéia para
fazer um tipo de cinema falsamente revolucionário. O que você
diz disso?
Pasolini estava muito à
frente de seu tempo, porque percebia as mudanças sociais no contato
direto e cotidiano com aqueles corpos que, dentre todos, eram os que estavam
sendo mais submetidos à mutaão antropológica operada
pela sociedade tecnológica. E ainda vivia num país tão
rico em culturas particulares que essa uniformização se tornava
ainda mais dramática e desesperadora. Antes mesmo de Pasolini, ainda
nos anos de 1950, o filósofo Herbert Marcuse havia previsto essas
mutações no livro "A Ideologia da Sociedade Industrial".
Foi quem primeiro anunciou a gestação da sociedade unidimensional:
uma sociedade tecnológica sem dimensão crítica nem
possibilidade de oposição, pela integração
dos proletários no consumo em massa, que transformava os antigos
"sujeitos revolucionários" de Marx em fiéis mantenedores
do status quo, que os beneficiava como nunca antes. A originalidade de
Pasolini foi viver essa percepção em seu corpo e exprimi-la
com toda sua força poética. "Eu não sei nem como nem
quando, mas alguma coisa de humano acabou", escreveu num poema. E ainda:
"A morte não é não poder mais comunicar-se, é
não poder mais ser entendido". Em outro momento, afirmou: "Eu daria
toda uma multinacional em troca de um único vaga-lume", observando
que a poluição industrial exterminara os vaga-lumes, que
iluminavam os campos de sua juventude.
Gostaria que você falasse
sobre o legado da obra de Pasolini..
Pasolini deixou-nos mais
de 16 mil páginas de literatura, em todos os gêneros. Mas
neste corpus de Tutte le Opere do escritor, recentemente publicadas pela
Mondadori em dez volumes, faltam seus 26 filmes, além das inúmeras
entrevistas que concedeu para a rádio e a TV. É que Pasolini
era um autor multimídia, cujas obras completas deveriam ser reunidas
não apenas em livros, mas também em DVDS. No futuro, isto
deverá ser feito com autores como ele. Homossexual revolucionário,
Pasolini era avesso ao movimento gay, que considerava burguês. Nas
emocionadas e emocionantes palavras que o escritor Alberto Moravia, seu
melhor amigo, proferiu em suas exéquias, o mundo perdia o maior
poeta italiano do século XX: "Mataram um poeta! Um poeta não
nasce todo dia! Um poeta nasce a cada século! Pasolini era o maior
poeta italiano deste século!". E eu diria que ele foi um grande
poeta não apenas em seus poemas, mas também em seus filmes
e mesmo em seus ensaios críticos. Era um pensador libertário
que escreveu sobre a totalidade do mundo, com emoção e originalidade;
um cineasta que marcou, com sua divinização do real, a teoria
e a prática do cinema; um polemista implacável que, na contracorrente
dos intelectuais hipócritas e conformistas, desnudou os horrores
do crescimento econômico, acusado de destruir o mundo humano e gerar,
ao lado da riqueza, uma insuportável violência de massa. Crescimento
econômico sonhado por todos, tanto pelo poder sem ética, falsamente
tolerante, que oferece o sexo e o consumo compulsórios como paliativos,
num sistema dominado por corruptos de direita e de esquerda, quanto pelas
oposiões a este poder, deslumbradas com os avanços da ciência
e da tecnologia.
Você já assinalou
a importância do Cine Bijou, em São Paulo, na sua formação
e escreveu: "O cinema dos anos de 1960-1970 tinha uma qualidade humana,
política e perversa que nos fazia respirar mesmo sob a ditadura
e que desapareceu com a cada vez mais dominante cultura de massas produzida
sob o terror da AIDS". Como acredita que Pasolini reagiria ao tipo de cinema
feito hoje?
Creio que Pasolini consideraria
a maior parte da produção atual como lixo industrial. No
período silencioso, ir ao cinema era como ir a um templo sagrado;
nos anos de 1930-1950, vivia-se o esplendor do cinema norte-americano (o
cinema europeu sofrerá com a propaganda nazi-fascista e a guerra,
ressurgindo com o neo-realismo); e nos anos de 1960-1970, com a explosão
do cinema autoral em todo o mundo, ir ao cinema significava descobrir um
novo universo a cada noite. E tínhamos de escolher num cardápio
que incluía os últimos grandes filmes de Bergman, Blasetti,
Bolognini, Buñuel, Cavalcanti, Cayatte, Clément, Clouzot,
De Seta, De Sica, Hitchcock, Kinoshita, Kinugasa, Kurosawa, Lattuada, Losey,
Mizoguchi, Monicelli, Naruse, Ozu, Resnais, Rossellini, Visconti, Wajda,
Welles, Wyler, etc.; e os primeiros sucessos de Allen, Altman, Antonioni,
Borowczyk, Cacoyannis, Coppola, Cronenberg, Delvaux, Fassbinder, Fellini,
Forman, Glauber, Godard, Herzog, Honda, Jancsó, Kümel, Lumet,
Lynch, Munk, Oshima, Parajanov, Pasolini, Penn, Petri, Polanski, Pollack,
Risi, Rivette, Rosi, Russell, Schlesinger, Schlöndorff, Schroeter,
Schmid, Scorsese, Shindo, Skolimowski, Spielberg, Syberberg, Tarkovski,
Tati, Truffaut, Wenders, Zanussi, Zurlini, etc. Era muito difícil
elaborar a lista dos dez melhores filmes do ano. Hoje também é
difícil, mas não pelo excesso, e sim pela falta de grandes
filmes. O pior é que nem todos os veteranos remanescentes mantiveram
a qualidade: o último filme de Resnais, "Medos Privados em Lugares
Públicos", por exemplo, é uma bobagem: em plena era da pornografia
digital (via cabo, Internet, DVD), os personagens escandalizam-se com strip-teases
caseiros gravados em VHS! Atualmente, raros são os autores com idéias
novas sobre o mundo, a vida, os homens e a sociedade, ou com idéias
novas em cinema. Eu citaria Lars von Trier, Thomas Vinterberg, Aleksandr
Sokúrov, Amos Gitai, Pedro Almodóvar, Ang Lee, Zhang Yimou,
entre os poucos. O cinema industrial norte-americano encontra-se paralisado
pelo sucesso das séries e infantilizado pelas demandas do novo público
adolescente que lota as salas. Analisei este problema no ensaio "Pós-Modernismo
e Cinema", publicado na coletânea "O Pós-Modernismo", organizada
por J. Guinsburg e Ana Mae Barbosa. Os cineastas europeus tentam opor-se
aos blockbusters de Hollywood; mas realizam outro "cinema comercial" utilizando
os mesmos esquemas dentro de um quadro de pensamento mórbido, neurótico,
que torna seus filmes aborrecidos, pretensiosos. Susan Sontag escreveu
um pequeno ensaio definitivo sobre o fim da cinefilia e, portanto, do cinema:
"Um Século de Cinema", incluído no livro "Questão
de Ênfase". É um texto que eu poderia ter escrito, pois penso
exatamente como ela. É o que justifica a refilmagem digital de "O
Gabinete do Dr. Caligari" por David Lee Fisher, e o retorno à estética
do cinema mudo nos intrigantes filmes de E. Elias Merhige e Guy Maddin.
Parece-me que o melhor cinema norte-americano hoje é feito nos seriados
de TV, como em "24 Horas", por exemplo, que ousa abordar o apocalíptico
terror moderno e o uso da tortura nas agências que combatem esse
terror; a loucura do fanatismo contra o poder, e a loucura do próprio
poder norte-americano. Outros seriados, como "Oz", "A Sete Palmos", "The
L World", etc. abordam a homossexualidade de modo mais aberto e realista
que nos filmes de Hollywood, embora "O Segredo de Brokeback Mountain" tenha
sido um marco neste sentido. Penso que Pasolini veria este filme com bons
olhos, criticando, de resto, as produões correntes do chamado "cinema
gay", dirigida ao gueto homossexual. Pasolini era avesso à mentalidade
de gueto. Associava sua homossexualidade a uma visão de mundo revolucionária:
seu cinema fugia, assim, à estética realista. A homossexualidade
está presente em seus filmes, mas nunca sob a forma de um casal
homossexual. Pasolini odiava a forma de vida representada pelo casal burguês,
fosse ele heterossexual ou homossexual.
[Publicado em: 08/10/2007]
"Ele
estava muito à frente de seu tempo"
Para o crítico Luiz Nazario,
o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini
anteviu as mudanças sociais
JOÃO POMBO
Na segunda parte da entrevista,
o professor Luiz Nazario explica como o poeta Pasolini se "transformou"
em cineasta.
O TEMPO - Numa entrevista
recente, o senhor citou o ensaio "Il Cinema di Poesia", escrito por Pasolini,
e apontou as discordâncias do diretor quanto ao conceito de cinema
de poesia defendido por ele e tão utilizado por cineastas que, aos
olhos do próprio Pasolini, aproveitavam-se dessa idéia para
fazer um tipo de cinema falsamente revolucionário. O que você
diz disso? Luiz Nazario - Ele estava muito à frente de seu tempo,
porque percebia as mudanças sociais no contato direto e cotidiano
com aqueles corpos que, dentre todos, eram os que estavam sendo mais submetidos
à mutação antropológica operada pela sociedade
tecnológica. E ainda vivia num país tão rico em culturas
particulares que essa uniformização se tornava ainda mais
dramática e desesperadora. Antes mesmo de Pasolini, ainda nos anos
de 1950, o filósofo Herbert Marcuse havia previsto essas mutações
no livro "A Ideologia da Sociedade Industrial". Foi quem primeiro anunciou
a gestação da sociedade unidimensional: uma sociedade tecnológica
sem dimensão crítica nem possibilidade de oposição,
pela integração dos proletários no consumo em massa,
que transformava os antigos "sujeitos revolucionários" de Marx em
fiéis mantenedores do status quo, que os beneficiava como nunca
antes. A originalidade de Pasolini foi viver essa percepção
em seu corpo e exprimi-la com toda sua força poética. "Eu
não sei nem como nem quando, mas alguma coisa de humano acabou",
escreveu num poema. E ainda: "A morte não é não poder
mais comunicar- se, é não poder mais ser entendido". Em outro
momento, afirmou: "Eu daria toda uma multinacional em troca de um único
vaga-lume", observando que a poluição industrial exterminara
os vaga-lumes, que iluminavam os campos de sua juventude.
Recentemente, o senhor afirmou
que "o que fez Pasolini passar da língua escrita (literatura) para
uma mais complexa língua escrita da ação (cinema)
foi sua percepção de que, de modo catastrófico, o
italiano técnico tornara- se, nos anos 1960, a língua dominante
na Itália". Essa é uma passagem da vida de Pasolini bastante
intrigante. Pasolini - antes de tudo poeta e escritor - se "transforma"
em cineasta. Poderia falar um pouco dessa passagem?
No início dos anos
de 1960, ocorre na Itália o chamado "milagre econômico", uma
recuperação bastante visível do país que fora
arrasado na Segunda Guerra. O trauma dos anos do fascismo e da República
de Saló; o orgulho da Resistência; o panorama de pobreza,
desemprego e humilhação pelo fascismo ainda remanescente
após a Libertação foram bem retratados pelo cinema
neo-realista do pós-guerra, em filmes como "Roma, Cidade Aberta",
"Paisà", "Ladrões de Bicicleta", "Sciuscià", "Arroz
Amargo", "La Terra Trema" etc.
Anos difíceis na vida
de Pasolini...
Pasolini viveu este período
com muito medo de ser fuzilado pelos fascistas, depois de ser convocado
pelo Exército e ter logo depois desertado. Refugiado em Casarsa,
perdeu o irmão, engajado num grupo de Resistência nacionalista,
fuzilado por guerrilheiros comunistas, num conflito que envolvia reivindicações
do território do Friuli. Depois da guerra, Pasolini engajou-se no
Partido Comunista e apoiou a luta dos camponeses, sem pretender, contudo,
uma revolução no estilo soviético. Logo foi expulso
do PCI por conta de um rumor infamante que o levou a assumir sua homossexualidade
publicamente. Com o escândalo, foge para Roma com a mãe, deixando
o pai fascista e furioso berrando atrás deles. Nesse período,
Pasolini era um literato que escrevia, além de peças, ensaios
e romances, poemas em italiano e em friulano, valorizando um dos muitos
dialetos da Itália, os quais eram proibidos pelo Estado fascista,
na meta da uniformização, da coesão, do alinhamento
de todos os cidadãos.
Quando ele toma contato com
o cinema?
Em Roma, para sobreviver,
Pasolini entra no fim dos anos de 1950 em contato com o mundo do cinema,
através do escritor Ítalo Calvino, que já escrevia
roteiros, e inicia sua atividade de roteirista. Nos anos 1960 dá-se
uma transformação na Itália, com a recuperação
econômica que também colocará um fim tanto às
esperanças de uma revolução socialista quanto ao neo-realismo
no cinema. Pasolini passa da literatura e da escritura de roteiros para
a realização de seus próprios filmes justamente nessa
época de transição, de uma cultura política,
engajada, humanista, ainda que marcada pelo catolicismo e pelo stalinismo,
para uma cultura de massa, consumista, histérica, afastada das antigas
ideologias. No contexto, embora seus primeiros filmes sejam influenciados
pelo neo-realismo, Pasolini percebe o italiano como língua já
corrompida pelo consumismo, que destrói, ainda mais que o fascismo,
os dialetos e as diversas culturas regionais em prol de uma única
cultura transmitida pelas mídias; e procura fazer de seu cinema
uma nova língua para expressar seu amor pela realidade; isso é,
pelos jovens e rapazes do povo, registrando com a câmara sua realidade
concreta, corporal, sensual, seus gestos característicos, sua fala
dialetal, tudo o que percebia estar em vias de desaparecer devido ao que
chamou de genocídio cultural: um novo fascismo, pior que o velho
fascismo, que não conseguira realizar a unificação
total que o consumismo, através dos novos meios de comunicação
de massa, estava, sim, conseguindo. (JPB)
[Publicado em: 08/10/2007]
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